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Melk, uma sobrevivente

 

por Alencar Izidoro, enviado especial a Ilhota (SC)

Entre os sobreviventes da destruição provocada pelas chuvas em Santa Catarina está a poodle Melk, de 7 meses. Como moradora do Alto do Baú, área de extremo risco arrasada por deslizamentos em Ilhota, ela tinha quase tudo para virar mais um pedaço de carne soterrado pela terra -conforme se percebe pelo cheiro dos animais mortos exalado nas imediações. Ou então, com sorte, seria mais um das dezenas de bichos que ainda perambulam no cenário caótico, afogando as patas no meio da lama, ilhados, perdidos, sem dono.

O resgate de Melk foi feito de helicóptero. A proeza pode ser atribuída mais à sua dona, Morgana Cath, 16, do que às próprias equipes de busca dos bombeiros ou das Forças Armadas. A ordem dada naquela terça-feira era para que toda a vizinhança se preparasse para ser transportada pelas aeronaves. O aviso era direto: todo mundo só poderia levar a roupa do corpo e os documentos pessoais, sem nenhuma bagagem, porque não havia espaço -e há limite de peso no vôo.

Morgana começou a chorar ao pensar que uma das maiores riquezas da família -a cadela adquirida por R$ 350 numa feira em Blumenau- poderia ser rejeitada. A adolescente não arredou pé. O bicho não saiu do colo da dona. Iriam as duas ou não iria ninguém. A menina não só foi convincente como, para arrematar, ainda carregou para dentro do helicóptero, um tanto de mansinho, os brinquedos e os produtos de higiene de Melk.

O salvamento da cadela não acabava por aí. No abrigo da Ilhotinha, um dos que recebem as pessoas que ficaram sem teto por conta das enchentes, a família foi bem recebida, porém as normas também eram claras: cachorro, gato, qualquer animal doméstico, só do lado de fora. "De jeito nenhum, ela vai se perder", argumentou Morgana.

O apelo mais uma vez fez da cadela uma privilegiada. "Consultamos as pessoas que estão no mesmo ambiente e que são parentes. Como elas não se importaram, resolvemos abrir uma exceção", conta Eli Terezinha de Souza, 41, servidora, que é uma das líderes da instalação.

Desde a última semana, Melk ocupa a mesma sala de aula da escola -improvisada como alojamento- onde sua família passa noite e dia. Virou até xodó da criançada. "Eu não a deixaria de jeito nenhum", diz a dona, que não desgruda da cadela.

http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf0712200824.htm